Twins Seven-Seven, "Imagens de Caçador", 1979

Sou professora há alguns anos e tenho vindo a deparar-me com uma realidade crescente, algo preocupante: os alunos com origens culturais diferentes da cultura portuguesa não se sentem integrados/incluídos de forma plena nas nossas escolas. Numa sociedade que se pretende desenvolvida, a integração, no sentido de inclusão, de todos os cidadãos, deveria ser um facto, uma meta… mas não é. No que respeita ao caso específico da disciplina que lecciono, Educação Visual, vou tentar expor as razões que me levam a afirmar o que antes disse. O meu objectivo é que entendamos que para uma sociedade verdadeiramente integradora, inclusiva, é necessário conhecer para saber acolher. E acolher de forma genuína. Esse é um papel que cabe a todos e que começa na escola.

A escola é hoje um dos veículos mais importantes da cultura e, no que respeita à educação básica do 3º ciclo, o currículo da Educação Visual permite explorar uma abordagem ao mundo através da arte, da expressão plástica e da sensibilização para a preservação do património natural e cultural, através de experiências e de interacções, de estratégias e actividades diversificadas.

Todo este entendimento e compreensão da arte como forma de expressão inigualável – quanto mais não seja pela capacidade que a arte possui para transmitir sentimentos e sensações que de outra forma não teriam lugar no ser humano – não seria o mesmo sem a inclusão de um passado histórico (como valor patrimonial e de pertença), como fio condutor que nos trouxe até ao presente. No campo da Educação Artística, esse passado são as nossas referências artísticas, que devemos conhecer, compreender e reconhecer, por forma a podermos ter uma melhor interacção com a arte do presente e podermos também fazer apreciações críticas contextualizadas e argumentativas. Esses valores do passado, essas referências artísticas que guardamos, são autênticas ferramentas para a criação artística integrada, ou seja, que faz parte de uma sociedade inclusiva, que inclui.

Os contextos multiculturais que se vivem hoje em diversas escolas do nosso país não fomentam, na sua maioria, a inclusão de referências artísticas multiculturais nos currículos das disciplinas de Educação Artística. Comecemos pelos manuais escolares. Quais deles integram, assumidamente e com representatividade inequívoca, referências artísticas, por exemplo, dos países africanos? O nosso passado colonizador – embora politicamente, a meu ver, não seja motivo de orgulho – deixou-nos uma herança cultural riquíssima que nos diferencia de outros países da Europa. No entanto, a sociedade parece teimar em camuflar essas referências culturais, que fazem (e ainda bem!) parte da nossa história.

Em grande parte das escolas, sobretudo nos subúrbios das grandes cidades, existem cada vez mais alunos africanos ou de ascendência africana. Essa marginalização de que são alvo, essa falta de inclusão plena que sentem, poderia ser minorada, creio, se a escola contribuísse com o reconhecimento das referências que estes meninos trazem. Seria importante que os currículos das disciplinas de Educação Artística contemplassem, pelo menos, parte da arte africana nos seus conteúdos e na sua implementação, de modo a que estes alunos encontrassem referências também nas artes visuais e não apenas na música e na dança, como acontece actualmente.

A arte africana inspirou artistas consagrados como Picasso, Dubuffet ou Modigliani, mas a escola não transmite esse reconhecimento e continua a desvalorizar a arte proveniente de culturas não europeias. Compreender as características históricas e estéticas da arte africana e reconhecer que as mesmas foram referência para artistas europeus e para a história da arte europeia, leva-nos a valorizá-la e essa valorização deveria ser transmitida aos alunos do ensino básico.

No dia-a-dia escolar, apercebo-me de que alguns problemas de adaptação por parte de determinados alunos de origem africana pode ter origem no não reconhecimento das suas próprias raízes, factor que dificulta a aceitação social de ambas as culturas (originária e de acolhimento). Se os alunos não encontram pontos de contacto entre a cultura em que estão inseridos e a sua, é provável que surjam situações de desconforto e de instabilidade que se transformem em indisciplina. O fosso entre as duas culturas acaba por ser motivo de um crescente desinteresse, devido à incompreensão e à intolerância de parte a parte.

Diversos estudos apontam também para uma menor exposição a referenciais artísticos e a um menor acesso a fontes de informação por parte de alunos africanos ou descendentes de africanos a estudar em Portugal no ensino básico. Perante esta realidade, a escola não pode desmarcar-se do seu papel inclusivo, sendo fundamentar que aja em prole do desenvolvimento integrado destes alunos. No campo da Educação Artística, isto significa a inclusão de referências artísticas africanas nos currículos e nas práticas da experimentação plástica. Foram as raízes de diferentes culturas que nos fizeram chegar ao que somos enquanto cidadãos portugueses, europeus e do mundo, tanto a nível de informação geral, como a nível de inclusão de diferentes indivíduos de diferentes culturas. São estas raízes que também devemos promover, numa escola contemporânea, inevitavelmente GLOCAL

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