Ao longo do tempo tenho seguido com alguma atenção o desenvolvimento deste projecto, não apenas como sigo qualquer outro mas por motivos particulares que se prendem com o facto de este projecto envolver realmente os jovens nas actividades que propõe. Não posso também deixar de o seguir pelo facto de propor iniciativas que se acercam das minhas áreas de estudo: a Educação Artística e a Arte Pública. Estudar estas duas áreas em conjunto possibilitou-me fazer emergir um conjunto de conhecimentos que resultam da sua intersecção e os quais me levam a considerar a Arte Pública como um importante recurso educativo.

Bem sei que está “na moda” a realização de “parades”. Começou em Portugal com a Cow Parade e não mais parou… a Table Parade, a Cadeira Parade, a Sea Parade e agora a Tijolo Parade. Há algum tempo atrás tive oportunidade de escrever sobre este assunto no meu blog Arte Pública na Escola e recordo ter escrito que estas iniciativas, quando bem organizadas e com objectivos claros, como me parece ser o caso, são um contributo claro para a formação estética e artística das pessoas envolvidas, assegurando também a participação efectiva dos cidadãos, num exercício de prática artística e cidadania. Penso que o que interessa (do ponto de quem gosta de Arte Pública, como é o meu caso) é que arte está definitivamente na rua!

Esta frase até poderia ser um cliché, sem grande importância, mas não! Vale a pena recordar brevemente algumas conclusões do estudo que levei a cabo comparando locais onde havia muitas obras de arte pública com locais onde essas manifestações artísticas eram escassas:

Sintetizando apenas alguns resultados, concluímos que os alunos dos locais com muita Arte Pública, em comparação com os alunos dos locais com pouca Arte Pública, dizem dispensar mais atenção aos elementos artísticos da paisagem urbana; consideram como obra de arte um maior número de manifestações artísticas; revelam conhecer melhor o conceito de Arte Pública e as funções que esta desempenha; identificam uma obra de Arte Pública com maior facilidade; revelam uma tendência para estar mais esclarecidos sobre o vocabulário específico das Artes Visuais, nomeadamente a diferença entre escultura e estátua; aparentam estar num estádio de apreciação estética e artística ligeiramente superior, revelam um maior conhecimento sobre arte em geral, e têm uma maior capacidade para apreciar arte. Em suma, parece-nos que os alunos que têm um contacto frequente com obras de Arte Pública indiciam ter uma maior literacia em Artes Visuais. (Silva, 2007)

Penso que um dos principais contributos deste estudo foi ficarmos a conhecer melhor a forma como os jovens vêem as obras de Arte Pública, como as percepcionam, e o modo como a sua vivência quotidiana com arte pode influenciar as suas aprendizagens e o seu desenvolvimento. Não devemos esquecer que a educação leva o cidadão a actuar sobre o seu mundo, tornando-se mais atento e interventivo, porque também é mais conhecedor, ao mesmo tempo que lhe permite reunir um conjunto de competências que o habilitam a viver ou estar em paisagens urbanas pouco legíveis, conseguindo assim, com maior ou menor dificuldade, descobrir elementos marcantes que lhe permitam orientar-se no espaço.

Não posso deixar de advogar para a Educação Artística um papel fundamental na formação integral dos cidadãos ao dotá-los com as ferramentas necessárias para a apreciação artística, pois os observadores menos experientes não estão menos aptos a ver arte, têm é menos ferramentas para o fazer. Possuir esse conjunto de ferramentas é também essencial para fruir a Arte Pública.

Na altura em que este estudo foi realizado foram também definidas um conjunto de orientações que me permito partilhar agora neste texto. A essas orientações chamei «Contributos para a abordagem pedagógica de obras de Arte Pública». Escrevi-as na altura a pensar não só nos professores mas também nos pais que se interessem em contribuir para a educação artística dos seus filhos, tornando-os observadores mais atentos, competentes e experientes. Todo este tempo depois (uma vez que foram escritas em 2007) penso que estas orientações poderão ser úteis também para os jovens que queiram dialogar com estas obras de arte.

Enuncio agora esses dez contributos que foram escritos com base nas conclusões do estudo realizado:

Contributo 1) O consumo cultural dos portugueses apresenta alguma vulnerabilidade face à variação da conjuntura económica. A Arte Pública pode ter neste campo um papel importante pois o acesso livre e gratuito a estas obras de arte pode ser um factor fundamental que garante a continuidade do consumo cultural dos cidadãos, mesmo em alturas de recessão económica.

Contributo 2) A Arte Pública deverá ser entendida como uma produção social e cultural baseada em necessidades concretas, a qual tem a função social de transmitir e formalizar conteúdos sociais, pelo que deverá ser sempre analisada em contextos concretos. Esta aparente “limitação” da Arte Pública não é mais do que uma relevante mais-valia, que justifica claramente o uso educativo das obras de arte em espaços públicos. Se as obras de Arte Pública devem ser analisadas em contextos concretos significa que as aprendizagens que daí decorrem estão contextualizadas e são significativas para os indivíduos daquela comunidade. Isto porque as situações que facilitam a integração de novos conhecimentos acontecem quando nos encontramos em situações naturais, ou seja, em situações de aprendizagem contextualizadas.

Contributo 3) O objectivo principal de um professor da área das Artes Visuais, ou de um pai que esteja preocupado com a Educação Artística do seu filho, ou até mesmo de um jovem que se interessa por artes, deve ser o desenvolvimento da chamada Literacia em Artes Visuais. Não devemos esquecer que o desenvolvimento deste tipo de literacia se processa em três campos diferentes mas interdependentes: a comunicação, a criação e a compreensão.

Contributo 4) O relacionamento com as obras de arte pública por parte dos cidadãos deve ter em conta um processo circular, descrito por Antoni Remesar, que transita entre a Recreação / Aprovação / Apropriação. Cada obra de arte deve ser recreada, aprovada e apropriada pelos cidadãos sob pena de nos depararmos com situações de incompreensão da obra; depreciação dos sentidos possíveis; confusão entre inovação e extravagância; uso inesperado da obra ou a sua vandalização. Assim, completar este processo, ao qual eu juntaria também a “Crítica”, torna-se essencial para o diálogo com estas obras de arte.

Contributo 5) Com vista ao desenvolvimento da percepção do espaço nas crianças e jovens é recomendável que lhes seja possibilitada a vivência do espaço urbano, nomeadamente através da realização de passeios a pé, de vistas de estudo, de peddy-papers, exercícios de desenho de observação, etc. Essa vivência deverá ocorrer preferencialmente em espaços de qualidade estética e urbana, confortáveis e legíveis, capazes de satisfazer as necessidades dos alunos.

Contributo 6) Possibilitar às crianças e jovens o maior contacto possível com diferentes obras de arte sem ignorar determinadas manifestações artísticas em detrimento de outras, mas mantendo sempre um critério de qualidade. O ideal é que os jovens tenham contacto com o maior leque possível de diferentes manifestações artísticas.

Contributo 7) É fundamental que se seleccionem para observação obras de qualidade; que as condições de observação das obras sejam as melhores possíveis; e que à observação das obras se associem os conhecimentos necessários para que o olhar se torne mais abrangente, limpo e profundo, mas também mais organizado.

Contributo 8) As crianças e jovens prestam mais atenção à cor, à forma e ao tamanho das obras de arte. Assim, sugere-se que se inicie a abordagem pedagógica das obras de Arte Pública por estes elementos, mas que, progressivamente, se vá introduzindo os outros como forma de ampliar os conhecimentos.

Contributo 9) As crianças e jovens são, na sua maioria, observadores pouco experientes e que se encontram nos estádios iniciais de percepção estética. É recomendável que se oriente a atenção para os elementos estéticos da paisagem de modo a possamos progredir como observadores, tornando-nos progressivamente mais experientes e também mais conhecedores.

Contributo 10) É recomendável que nos locais com pouca Arte Pública se proporcione às crianças e jovens um maior contacto com arte, nomeadamente através de práticas de investigação; da produção e realização de espectáculos, oficinas, mostras, exposições, instalações e outros; da utilização das tecnologias da informação e comunicação; da assistência a diferentes espectáculos/exposições/instalações e outros eventos artísticos; do contacto com diferentes tipos de culturas artísticas; do conhecimento do património artístico nacional; de intercâmbios entre escolas e outras instituições; e da exploração de diferentes formas e técnicas de criação.

Não posso deixar de assinalar que o projecto Arts & Culture, e a sua inciativa Tijolo Parade, vem ao encontro destes contributos que acabo de enunciar. É como muito gosto que partilho este texto no blog do projecto e não posso deixar de congratular toda a comunidade envolvida pela qualidade deste projecto.