João M. Gil

Desde pequeno que João M. Gil se interessou pela fotografia, através da leitura e de muita prática. Nos últimos anos, a paixão pela fotografia tem-se juntado à de estar na montanha, pelos seus vales, cumes e encostas, pelas suas florestas, prados, gelo, neves e rochedos, assim como com as gentes da montanha. Muitas das suas fotografias são resultado de várias saídas para o contacto e respeito directo com a Natureza, sempre de tripé e equipamento fotográfico na mochila. Mas não só.

Faz fotografia de paisagem, retrato, viagem, macro e abstractos. O seu trabalho tem sido reconhecido em exposições, de carácter temático, como em Tempus Fugit (individual), Horizontes Verticais (individual) e Olhares Montanheiros (com o fotógrafo Nuno Verdasca), e em concursos de fotografia. Vende as suas fotografias como peças de arte e de criação de ambientes, decoração e arquitectura (nacional e internacionalmente). Organiza workshops de fotografia e desenvolve vários inovadores projectos fotográficos. Recentemente editou e publicou os livros “Olhares Montanheiros” e “On Mountains”, também com Nuno Verdasca, com prefácios de Carlos Pinto Coelho e João Garcia.

http://www.alma-lux-photographia.com (adaptado)

Onde vai buscar a sua inspiração do dia-a-dia para conseguir concretizar os seus maiores feitos?

 Bem…os maiores feitos fazem-se dia-a-dia, sim. Mas não é nuns poucos de dias que se fazem. Costumam demorar meses a construir, ou mais. Mas todos os feitos, maiores ou menores, vou buscá-los a mim próprio. À minha coerência de ser e mostrar ser como sou. Dia após dia. Isto inclui não entrar demasiado nos esquemas negativos de acompanhar muitas das notícias que tendem a ser negativas, sobre o Mundo. Combato o negativo, de forma coerente. Escolho onde vou buscar inspiração, desde na Internet (a alguns fotógrafos) aos livros que escolho ler. A TV não permite “escolher” tão bem. Outra fonte de inspiração é na satisfação das pessoas com que vou trabalhando ou lidando. Quero dar-lhes energias, mas também a sua satisfação é fonte de energia para mim – desde os clientes, às pessoas com que comunico no meu trabalho. E acabas por encontrar outros que também pensam da mesma forma, com que sentes uma especial empatia – isso é muito inspirador.

Considera o seu trabalho, um trabalho difícil, com pouca visibilidade no país onde vivemos?

Estamos num País em “modo de sobrevivência”, há já muitos anos. Não é um País onde é fácil ser-se reconhecido pelo que realmente se vale, seja em que área for (mesmo no meu anterior trabalho, por exemplo). Aqui ainda se está na fase evolutiva de considerar que um trabalho “a sério” é encarado por muitos como aquele de lida com números, cálculos, “obra feita”, dita “objectiva”, construtivo e não subjectivo. E o que é mais sacrificado, ainda, é o trabalho criativo, seja na fotografia ou na escrita de um livro. Em muitas coisas, é preciso vir alguém de fora reconhecer o trabalho de alguém de dentro, para acordar alguns cá dentro. Nesse aspecto é um trabalho não difícil, mas muitas vezes duro e ingrato. Mas, por outro lado, estes País ainda tem muito por onde ser explorado, muito para ser feito – desde que de forma criativa, inspirada, inteligente, diferente do resto e de forma sustentada. Não ser criativo, não criar, é um beco sem saída. Mas sei que há muita gente a seguir o meu trabalho, sim.

Prefere retratar paisagem urbana, ou por outro lado, paisagens naturais? E porquê?

Uhm. Gosto de ambas, com sinceridade. Assim como de pessoas. Tenho uma exposição (Horizontes Verticais) onde as fotografias constituem pares, entre paisagens naturais e urbanas. Contudo, devo dizer, são as naturais que costumam ser acompanhadas de melhores textos meus, com mais carga emotiva. Já terão reparado que gosto de juntar texto a fotografia. Já disse isto noutra entrevista: se sabemos que uma imagem fale 1000 palavras, uma imagem acompanhada de mil palavras de texto vale bem mais do que 4000 mil. Fiz as contas. Ehehe. Se posso simplificar as coisas, gosto das urbanas pelas texturas e geometrias. Gosto das naturais pelas cores e pelas histórias e emoções que as acompanham.

Haverá algum sítio ideal, onde sonha tirar a sua “foto perfeita”? Qual? Em sonhos! Não há a fotografia perfeita. O que é a “foto perfeita”?

Já andei à procura dela, mas não só vi que não é procurando que a encontrarei (o melhor exercício criativo não pode ser forçado nem pressionado – tem que sair de forma natural), nem sequer sei o que será. Andar sempre à procura da foto perfeita, até por aquelas razões, pode tornar-se um pesadelo. Talvez seja uma foto que permita o tal reconhecimento que permita abrir mais portas e permitir que se trabalhe bem e se tenha qualidade de vida (não é só euros, mas ter tempo para viver os momentos de felicidade). Será isso?, pergunto-me. Mas, atenção, uma fotografia pode ser mais do que aquele “rectângulo com imagem dentro”. É mais, a meu ver, até porque ser um fotógrafo é também assumir aquilo que fazes com a tua Fotografia. Por isso, a “fotografia perfeita” para mim, também terá que incluir um contexto perfeito. Tenho algumas “especiais”, assim, sim.

Podemos observar, ao longo do seu trabalho, que também tirou fotografias a povos mais desfavorecidos, que sentimentos essa situação desperta em si?

Sim, mas não pela condição e não são assim muitas. Também gosto de fotografar (ou de observar fotografias de) grandes empresários ou políticos, desde que no seu ambiente do dia-a-dia. Gosto da genuinidade, no retrato das pessoas. E também gosto de sentir essa proximidade, no exercício de fotografar. Como disse atrás, não gosto de fotografar coisas negativas. Não é pela condição desfavorecida que tirei essas poucas fotografias. É pela tal genuinidade e por ter comunicado com essas pessoas. Em geral têm sempre coisas interessantes e surpreendentes para te dizer.

Quais os seus objectivos para o futuro, que patamar pretende atingir?

Eh pá. Grande pergunta. Quase parece fazer parte do lote de perguntas: “Quem sou eu? Onde vou? O que estou aqui a fazer? Acreditas na re-encarnação?”. Quero usufruir de momentos de felicidade. Muitos e sentidos. Quero ter tempo para os sentir e apreciar. Por exemplo: vim do Gerês há uns dias, em trabalho, dizendo a mim mesmo “Tenho amigos nas montanhas” – isso para mim é motivo de um momento de felicidade; com esses amigos tenho tido momentos de felicidade; assim como sei que a eles lhes tenho dado também felicidade. E tenho-o feito através da Fotografia. Que patamar? Digam-me quais são os patamares que temos disponíveis nas prateleiras da vida – depois respondo.